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MUNDO RUMO À CATÁSTROFE CLIMÁTICA?
Fernando Alcoforado*
Este artigo tem por objetivo apresentar e analisar o relatório do Painel Intergovernamental
sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão ligado à ONU, divulgado em 9 de agosto de
2021 através do qual mostra todo o conhecimento adquirido desde a publicação de seu
relatório anterior em 2014 sobre o clima do planeta Terra. 234 autores de 66 países
revisaram mais de 14.000 estudos científicos e seus trabalhos foram recebidos com mais
de 78.000 comentários e observações de pesquisadores e especialistas que trabalham para
os 195 governos aos quais este trabalho se destina. Este relatório revela um
aprofundamento no conhecimento do clima passado, presente e futuro da Terra. Resumo
deste relatório pode ser lido no artigo Selon le GIEC, le changement climatique est
irréversible, mais peut encore être corrigé (Mudança climática é irreversível, mas ainda
pode ser corrigida, diz IPCC) disponível no website
<https://www.sciencesetavenir.fr/nature-environnement/climat/selon-le-giec-le-
changement-climatique-s-accelere-est-irreversible-mais-peut-etre-corrige_156431>.
Neste relatório do IPCC, foi apresentada graficamente a variação da temperatura da Terra
do ano 1 a 2020. A Figura 1 apresenta a variação da temperatura da Terra do ano 1 a 2020
e a provocada por causas naturais (solar e vulcânica) e pelo homem de 1850 a 2020.
Figura 1- Variação da temperatura da Terra
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Fonte: https://www.sciencesetavenir.fr/nature-environnement/climat/selon-le-giec-le-changement-
climatique-s-accelere-est-irreversible-mais-peut-etre-corrige_156431
Nesta figura, pode-se constatar que a variação da temperatura da Terra apresentou queda
do ano 1 até 1850, porém, a partir desta época, que corresponde à 1ª Revolução Industrial
na Inglaterra, houve um crescimento acelerado desta variação sem precedentes em 2000
anos evoluindo de zero para alcançar 1,1 °C em 2020 . A temperatura global na superfície
da Terra entre 2000 e 2020 foi 1,1 °C mais alta do que a média entre 1850 e 1900.
Constata-se um rápido aumento nas temperaturas nunca antes visto. É mais alta nos
continentes (1,59 °C) do que nos oceanos (0, 88 °C). Pode-se observar, também, que, de
1850 ao ano 2020, ficou evidenciada que a atividade humana (antrópica) é responsável
pelo aumento da variação da temperatura observada no planeta porque se constatou que
não houve variação na contribuição solar e vulcânica de 1850 a 2020. Não mais
dúvidas de que o Homem está realmente na origem do fenômeno atual. É inequívoco que
a influência humana aqueceu a atmosfera, os oceanos e o solo. Ficou evidenciada a
certeza de que a mudança climática que está em curso é causada pelas emissões humanas,
é irreversível, mas pode ser corrigida se houver uma ação forte e coordenada de todos os
países do mundo, segundo o IPCC.
Segundo o IPCC, na última década, todos os recordes de emissões de gases de efeito
estufa causados pelo homem foram quebrados. As concentrações continuaram
aumentando. Em 2019, era de 410 partes por milhão (ppm) para CO2, 1866 partes por
bilhão (ppb) para metano (CH4) e 332 ppb para óxidos nitrosos (N20). 56% dessas
emissões são absorvidas pelo oceano e pela vegetação e solos. 44% das emissões anuais,
portanto, se acumulam na atmosfera e causam um aumento no efeito estufa. Em 2019, as
concentrações de CO2 estavam em níveis não vistos no planeta há pelo menos 2 milhões
de anos e as de metano e N2O por 800.000 anos. Desde 1750, os níveis de CO2
aumentaram 47%, o metano 156% e o N2O 23%.
O relatório do IPCC aponta perturbações no ciclo da água informando que, globalmente,
chove mais na Terra hoje do que em 1950 e tem se acelerado desde 1980. Como resultado,
as inundações são mais frequentes em algumas regiões do planeta enquanto os períodos
de seca se multiplicam e se alongam em outras regiões. O número dos ciclones mais fortes
aumentou nas últimas quatro décadas, mas não certeza de que seu número total
aumentará. No Pacífico Norte, essas tempestades estão ocorrendo agora em latitudes mais
altas. O nível do mar aumentou 20 centímetros entre 1901 e 2018. O oceano aqueceu mais
no século 20 do que desde o final da última era do gelo, 11.000 anos atrás, que marcou o
início do Holoceno. O aumento do nível do mar é causado tanto pela expansão térmica
devido ao aumento da temperatura da água quanto pelo derretimento das geleiras, do gelo
marinho ártico e da camada de gelo da Groenlândia. O relatório detalha pela primeira vez
a responsabilidade de um e do outro. A expansão térmica explica 50% da subida dos
mares, enquanto as geleiras contribuíram com 22%, as calotas polares com 20% e o
armazenamento de água em barragens com 8%.
O relatório do IPCC informa que o gelo do Ártico derrete muito rapidamente. A taxa de
derretimento das calotas polares quadruplicou entre 1992-1999 e 2010-2019. Juntas, as
calotas polares e geleiras se tornaram os contribuintes mais importantes para o aumento
do nível do mar entre 2006 e 2018. O gelo marinho no Ártico viu sua área de superfície
encolher 40% em setembro entre 1979-1988 e 2010-2019, e 10% em março entre os
mesmos dois períodos. tendência de eventos extremos cada vez mais violentos e
numerosos. A ligação entre as mudanças climáticas e os eventos climáticos mais severos
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está cada vez mais bem estabelecida. Ondas de calor têm sido mais frequentes e intensas
na maior parte do mundo desde a década de 1950, enquanto as ondas de frio mais fortes
se tornaram menos frequentes. Incêndios e inundações também são mais violentos. A
ocorrência dos episódios muito destrutivos das últimas décadas não teria sido possível
com essa intensidade sem a influência do homem. Cada 0,5 °C adicional causará um
aumento muito significativo na intensidade e frequência de eventos extremos, incluindo
ondas de calor e precipitação pluviométrica muito forte. A permanência do CO2 na
atmosfera é de cem anos. Cada tonelada emitida se soma às lançadas nas décadas
anteriores. Essa inércia implica em que o aquecimento global continuará mesmo se o uso
de combustíveis fósseis cair drasticamente a partir de 2021.
O relatório do IPCC traçou cenários de evolução da temperatura e da emissão de gases
do efeito estufa apontando que, em comparação com o período de 1850-1900, a
temperatura na superfície da Terra entre 2081 e 2100 deve ser 1 °C a 1,8 °C mais alta
de acordo com os cenários de queda drástica nas emissões de gases de efeito estufa, de
2,1 ° C para 3,5 °C nos cenários intermediários e a5,7 °C se nada for feito. A última
vez que a temperatura da superfície da Terra foi 2,5 °C mais alta do que no período de
1850-1900 foi há 3 milhões de anos. Três fenômenos atuais não podem ser interrompidos
hoje: o aumento da temperatura do oceano, o derretimento da camada de gelo da
Groenlândia e o aumento do nível do mar, pois há uma relação linear entre esses eventos
e o conteúdo de CO2 na atmosfera. Os sumidouros de carbono que são o oceano e a
cobertura vegetal da Terra serão cada vez menos eficientes. No estado atual das emissões
de gases de efeito estufa e tendo em vista os compromissos assumidos pelos países para
reduzir suas emissões no âmbito do Acordo de Paris, 1,5 °C será ultrapassado em menos
de 20 anos. Somente uma ação coordenada, intensa e poderosa para converter a economia
mundial em uma economia baseada no uso de tecnologias limpas e fontes de energia
renováveis poderá evitar a catástrofe climática em curso.
O relatório do IPCC conclui que os incêndios florestais devem aumentar em muitas
regiões, bem como eventos extremos ocorrerão com mais frequência do que antes. Desde
1970, as temperaturas da superfície da Terra aumentaram mais rápido do que em qualquer
outro período nos últimos 2 mil anos. O aquecimento global está causando muitos
extremos climáticos em todas as regiões do globo como as ondas de calor na Grécia e no
oeste da América do Norte, ou as inundações como as da Alemanha e da China. Veremos
ondas de calor ainda mais intensas e frequentes. Também veremos um aumento nos
eventos de fortes chuvas em escala global, além de mais tipos de secas em algumas
regiões do mundo como está ocorrendo no Brasil. Os oceanos continuarão a aquecer e se
tornar mais ácidos. As geleiras montanhosas e polares continuarão derretendo por décadas
ou séculos. Quando se trata do aumento do nível do mar, um aumento de cerca de dois
metros até o final deste século não pode ser descartado, nem mesmo um aumento de cinco
metros até 2150. Inundações atingirão muitos milhões a mais de pessoas nas áreas
costeiras até 2100. O relatório do IPCC mostra claramente que estamos vivendo as
consequências das mudanças climáticas em todos os lugares da Terra.
O relatório do IPCC faz um alerta vermelho para a humanidade", disse o secretário-
geral da ONU, Antônio Guterres. Ele afirma que se unirmos forças agora, podemos evitar
a catástrofe climática. Mas, como o relatório do IPCC deixa claro, não tempo para
delongas e nem espaço para desculpas. Então, o que pode ser feito para evitar esta
catástrofe climática? A solução é cortar as emissões globais de gases do efeito estufa pela
metade até 2030 e zerar as emissões líquidas até meados deste século para interromper e
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possivelmente reverter o aumento de temperaturas. Zerar as emissões líquidas envolve a
redução das emissões de gases de efeito estufa tanto quanto possível usando tecnologia
limpa e energia renovável e, também, efetuar a captura e armazenamento de carbono, ou
absorvendo-as com o plantio de árvores. Muito provavelmente o mundo não terá sucesso
em evitar o agravamento da mudança climática devido à inexistência de um sistema de
governança mundial que seja capaz de evitar o aumento do aquecimento global e a
consequente mudança climática catastrófica resultante da impotência da ONU.
* Fernando Alcoforado, 81, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema
CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento
Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor
nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de
sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC-
O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil
(Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de
doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização
e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século
XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions
of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller
Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária
(Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o
progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo,
São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV,
Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI
(Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o
Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba,
2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-
autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019) e A humanidade
ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021).